Belenenses contabilizam prejuízos no período chuvoso

Perdas materiais e constrangimentos no cotidiano são rotina para os que sofrem com aguaceiro na cidade

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A vendedora Marinete Dantas, 47 anos, foi dormir por volta das duas horas da madrugada desta terça-feira (12). Ela ficou acordada até esse horário tirando a água da chuva que invadiu a sua casa. Há quase cinco anos ela mora na passagem Elvira, próximo à avenida João Paulo II, no bairro Curió-Utinga, um ponto crítico de alagamento. Marinete dormiu nos segundo pavimento de sua residência. “Entrou tudo quanto foi água aí pra dentro. E olha que a minha casa é alta. Eu fui dormir duas horas da manhã, porque estava limpando com o meu filho e meu irmão que está morando comigo”, contou.

“No ano passado, perdi geladeira, cama e o guarda-roupa novinho do meu filho. Isso não é de hoje, é um problema muito grave”, acrescentou.
Ela tem uma venda em sua casa, justamente na área tomada pelas águas da chuva. “Eu tenho um comércio, enche de água, enche tudo, não posso nem trabalhar.  Quando começa a chover forte, eu já penso em minha casa, mano. Não penso em mais nada. Às vezes, eu estou só e não tem ninguém para me ajudar, para suspender (alguns móveis).”

A vendedora disse que já pensou em mudar de endereço. Mas seus filhos não concordam com essa decisão. “Meus filhos dizem: ‘mãe, não vende. Um dia vai melhorar. Não vai ser pra sempre’. Mas quando? Quando eu morrer que eles vão endireitar? Ontem (segunda-feira, dia da chuva forte) à noite eu pensei muito em vender a minha casa e ir me embora daqui”, questionou. Marinete disse que a prefeitura enviou uma equipe até o local. “Eles mandaram uma equipe aqui para endireitar os bueiros. Eles chegaram, abriram o bueiro e foram embora. Não meteram o jato para tirar monte de terra dentro dos bueiros”, contou.

No dia seguinte às chuvas, o trabalho dos catadores de lixo da prefeitura se intensifica. A cidade fica imunda.No dia seguinte às chuvas, o trabalho dos catadores de lixo da prefeitura se intensifica. A cidade fica imunda. (Igor Mota)

Nas áreas onde esses alagamentos são crônicos, moradores adotam estratégias para minimizar os danos. Nas transversais da avenida João Paulo II, por exemplo, moradores mandaram elevar a altura de suas calçadas para, assim, impedir que as águas invadam suas residências. Isso representa um impacto no já apertado orçamento familiar. O gestor de recursos humanos Daniel Prestes Furtado, 42 anos, é vizinho de Marinete. “Ficou uma vergonha. Tanto a Elvira (onde mora desde os oito anos de idade) quanto a João Paulo II ficaram intrafegáveis. Carros pararam aqui na frente. Fizeram o prolongamento da João Paulo II, mas esqueceram de colocar uma balsa nesse pedaço para atravessar os carros no período da chuva”, disse, indignado. “Eu só queria pedir uma coisa: que o prefeito criasse vergonha na cara. Quando tem enchente, a desculpa é a bacia do Tucunduba. Se o problema é esse, por que não investe para fazer lá? Faltou um dedo para a água invadir minha casa, que é alta (em relação ao nível da rua). Hoje (ontem), uma aluna da escola (infantil, ali perto) caiu dentro de um bueiro (próximo à João Paulo). Machucou a perna e voltou para a casa. Já que não vai fazer nada, que mande um carro-pipa pelo menos para lavar a rua”, afirmou.

Jorge Barros tem 63 anos e se criou na travessa Quintino Bocaiúva, próximo à rua Timbiras, na Cremação. Os moradores dessa área também padecem na época do inverno. “Quando a chuva é forte, não tem como a gente sair de casa. Fica tudo alagado. Um transtorno danado. Carro passando e jogando água dentro das casas. Veículos andando na contramão. A situação fica muito precária”, contou.

Ele lembrou que, quando a rua foi asfaltada, aumentou o nível da via, mas o problema não foi resolvido. “Não houve a conclusão da macrodrenagem (da Estrada Nova). Foi mesmo que nada. A gente paga imposto e continua no mesmo sufoco. A gente não se mudou daqui por causa da minha mãe, que tem 92 anos e é muito apegada aqui. E, por esse motivo, eu não saí daqui”, afirmou. Relativamente perto dali trabalha Odair José Ferreira, 56 anos, que é borracheiro em uma oficina na rua Pariquis, entre a travessa Quintino Bocaiúva e a travessa Rui Barbosa, onde também um ponto crítico de alagamento. Ele chamou atenção para a coleta do lixo na área. “O carro não passa pela manhã. Em vez de ser recolhido pela manhã, está sendo recolhido à tarde. Chove pela manhã e a água leva todo o lixo, vai embora, se espalha tudo”, contou. Para amenizar essa situação, os moradores colocam o lixo em sacos plásticos e os amarram nos postes, suspensos.